Bem vindo Junho, espero que você seja bom. O tempo passou e seu significado mudou, por isso vamos fazer um pacto? Você promete ser bom, que eu prometo não lembrar do que você antes significava e sigo em frente.
(pennydreams)
Géssica Moura
(Source: cirandices)
Eu vivo na espera de poder viver a vida com você.
Charlie Brown Jr.
O tempo passou, mas pouca ou muita coisa mudou, não sei dizer. Ainda lembro do tempo que me dizia que que tudo o que você mais queria era viver ao meu lado, vivia na espera disso tudo acontecer, de muita coisa mudar, o amor só aumentar e de nossos sonhos e desejos partilhar comigo. Mas o rumo mudou e cada um por si ficou.
Géssica Moura
(pennydreams)
(Source: marymay)
“Só eu sei o quanto doeu ver a melhor coisa do mundo indo embora”, Tati Bernardi.
Então, eu entro em casa e dou de cara com isso. A letra é feia demais para pertencer à minha mãe. Sem sentido para ser do meu irmão. E, bom… Essa semana, apenas eu estou em casa. Fecho os olhos e luto com todas as minhas forças para não chorar porque, sendo sincera comigo mesma, eu seria capaz de reconhecer essa letra apenas pelo toque. Posso quase lhe ver segurando a caneta daquele jeito desajeitado e brusco – tão diferente de como você segurava a mim. E esse traçado completamente desengonçado surge. Acho que, incluindo até mesmo você, eu sou a única pessoa capaz de compreender a sua letra. Incluindo você, eu sou a única pessoa que compreende qualquer coisa sua. Manias, trejeitos, pensamentos, estupidez. Tudo. E você, em troca, sabe de mim como ninguém nesse mundo. Você sabe me fazer doer, e você faz. Você sabe que vai pegar bem onde eu não deveria sentir mais, e por isso você toca. Porque você, depois de todo esse tempo, ainda é a única pessoa capaz de fazer renascer aquelas coisas que já haviam morrido faz tempo. Você sabe… Alma. Coração.
Vontade de socar uma parede imaginando que a sua cara esteja nela.
Essas coisas básicas que o… Me interrompo, porque amor não é mais uma palavra existente no meu dicionário em relação à você. Então, que o carinho faz com a gente. Compaixão. Saudade. Não… Saudade também não. Saudade é algo que se sente por um amigo que já se foi e você está presente demais nos meus dias para ser considerado alguém que não está aqui. A frase já começa errada, porque você também não é meu amigo. Você não é nada. É um estorvo que serve apenas para me lembrar como eu nunca poderei ser feliz enquanto você estiver por perto. E como eu sou fraca demais para mandar você embora, eu tenho apenas que aprender a conviver com essa falta constante de algo que eu nem mesmo sei o que é.
Só eu sei o quanto doeu ver a melhor coisa do mundo indo embora.
Só você não, Tati. Só nós.
- Se eu fosse seu pai, com toda certeza do mundo, eu jamais deixaria você ficar um dia sequer sozinha em casa. Quem dirá uma semana… – enquanto eu me recupero do susto que foi ver você parado, escorado na porta da cozinha, você continua. – Sabe, qualquer dia desses algum maloqueiro pode entrar e pegar você de forma indecente, sabe? Você nunca pode prever quando algum louco vai querer entrar na sua casa.
Eu desvio o olhar.
Depois de dois meses sem você, é difícil demais te encarar. Você me desacostuma de você, apenas para depois voltar e me sacudir de novo. Você some do mapa, não me deixa notícias, não atende minhas ligações. Para simplificar, apenas finge que eu não existo. E, então, volta como se nada tivesse acontecido. Como se eu não tivesse passado os últimos 63 dias contando no calendário o tempo que demoraria para que eu pudesse te ver de novo. Você ignora completamente o fato de que eu passei esses 63 dias acordando e checando as mensagens do meu celular. E as ligações. E meu e-mail. E qualquer coisa que tivesse a menor ligação com você. Você finge não saber o meu desespero.
E aí volta com esse sorriso de canto, o cabelo ainda mais comprido e bagunçado, a blusa branca com o jeans e me olha sem escrúpulo nenhum, como se tudo isso fosse apenas normal. Como se nós dois devêssemos nos sentir assim. E eu devesse apenas me atirar nos seus braços a agradecer por ter voltado para a minha vida mais uma vez. Bem, não agora. Talvez nunca mais.
- Ainda bem que não é, então. – eu respondo, ríspida demais até mesmo para mim. Mas você parece não perceber, pois o sorriso se ergue um pouco mais.
- Realmente, agradeço todos os dias por não ser. Nem seu pai, nem seu irmão, nem qualquer coisa que tenha relações sanguíneas com você. – uma leve pausa e eu já sei o que está por vir. – Sabe, nosso relacionamento já é complicado demais sem parentescos. Incesto é algo drástico demais, até mesmo para mim.
Eu reviro os olhos e tenho que conter o sorriso que se forma nos meus lábios. É incrível como você sempre acaba dizendo o que eu penso. Mas, por mais fraca que eu seja, é preciso me manter firme. Como uma rocha, a voz do Bernardo me lembra.
E essa voz é a única coisa que me faz não cair na tentação.
- Isso não seria um problema, porque nós não temos uma relação, Henrique. – depois de 63 dias, pronunciar o seu nome havia se tornado complicado. Eu vinha treinando no espelho dizer frases sem incluir seu nome, pra tornar tudo o mais impessoal possível. Falhei.
- Não? E amizade não seria um tipo de relacionamento?
- Claro que sim.
- “Apenas amigos”, lembra? Você mesma que disse.
- E isso foi antes ou depois de você e do meu namorado saírem no soco um com o outro? – pela primeira vez, vejo a sua máscara de indiferença falhar e você se aproxima. Involuntariamente, seus pés dão dois passos a frente e eu sinto o início do fim nos pegar de surpresa. Porque, dessa vez, não há ninguém que nos impeça de seguir em frente. E Deus sabe como nós mesmos não somos capazes de nos impedir.
- Sério, Anna? Você vai me culpar por ter começado a briga? Em momento algum parece passar pela sua cabecinha que talvez ele tenha tanta raiva de mim quanto eu dele. Eu garanto que, se não fosse por aquele ‘tire as mãos da minha garota’, eu não teria partido para cima dele.
- E por que cargas d’água partiu, Henrique? O que foi que ele disse de tão errado assim?
- “Minha” garota.
Dessa vez, quem ergueu a sobrancelha fui eu.
- E ele está certo.
- Não está, não.
- Henrique, por favor. Você tem que entender que… Você precisa superar isso. Você não sente ciúmes porque ele me chama de minha. Não mais do que se eu chamasse o seu travesseiro, ou qualquer coisa sua, de meu. O problema é que você passou tempo demais me considerando sua e agora… Agora você se sente traído. Mas não é por mim, Henrique. E, se você tem o mínimo de apresso pela minha pessoa, você deveria me deixar em paz.
Você estava a um palmo de mim e, quando eu achei que não fosse mais suportar a proximidade, você se afastou. Pela primeira vez, achei que fosse fazer o que eu pedi. Mas você se virou e mexeu no cabelo daquele jeito irritantemente hipnótico que você mexe quando está pensando se deve dizer algo ou ficar calado. Quando toma a decisão, se vira para mim, com os olhos cansados.
- Eu não quero ouvir.
- Não, me deixa falar.
- Henrique, eu realmente acho que seria melhor você ir embora. Eu nem sei como você entrou, mas, sincerament…
O movimento é tão rápido que eu mal o percebo. Quando vejo, você já está a meio centímetro de distância, e a sua mão já cobriu a minha boca de uma maneira tão irritante que eu estou prestes a protestar, mas você começa a falar e eu, honestamente, já estou cansada também.
- Por que você acha que eu fiquei fora esses dias, Anna? Pra tirar umas férias em Las Vegas? Acredite se quiser, não. Eu odeio quando você fala como se fosse a única vítima disso tudo, droga. Nenhum de nós dois é vítima. A gente sabia muito bem o que estava fazendo, e fez do mesmo. Eu passei dois meses longe, Anna. Passei dois meses me torturando porque eu sabia que você estava nos braços daquele idiota. Dois meses inteiros e, durante todos os dias, eu tinha que me conter para não voltar. Chegar até a porta do apartamento do meu pai e pensar ‘não’. Porque eu sabia que você não iria me querer por perto. Mas a verdade é que nem eu mesmo me queria por perto, Anna. Nem eu suportava a minha companhia. – uma pausa, mas eu sabia que você ainda não tinha terminado. E, mesmo se tivesse, eu não tinha observações a fazer. A mão foi descendo da minha boca até encontrar minha mão. Quando dei por mim, elas já estavam entrelaçadas. E não seria eu a desfazer isso. – Você… Você fez de mim uma pessoa melhor, sabe? Não vou dizer que eu fique bom na sua presença. Mas… Suportável. Até minha família fica falando sobre como meu humor melhora, e essas épocas sempre são aquelas em que a gente está de bem.
- Henrique…
- Espera. Deixa eu terminar primeiro, antes de você apenas me enxotar daqui e fingir que essa conversa nunca existiu, como sempre. Lembra quando eu disse que não lembrava de ter te ligado? Eu menti. Lembra de todas as vezes que eu disse que tinha te esquecido? Mentira, também. Por nenhum momento você saiu da minha cabeça. Era uma droga. Eu ficava tentando me concentrar em outras coisas, outras mulheres. Mas, dentro da minha cabeça, sempre vinha a sua vozinha dizendo o que era certo e o que era errado. Deus sabe a quantidade de merda que eu já teria feito se não fosse por isso. – nós dois demos uma risadinha e reviramos os olhos. Eu tentava não te encarar, mas, por Deus, era quase impossível. – Eu acho que o que eu venho tentando dizer é que… Você é meu anjo, sabe? Sem querer soar clichê, mas é a verdade. Eu já estive tão no fundo do posso, e você sempre me tirou de lá. Você sempre esteve ali, Anna. E agora… Agora eu sinto como se não houvesse solução. “Sem esperanças”, lembra? Não é porque é qualquer uma, Anna. Eu não me importaria com mais ninguém. Mas, com você… Ninguém tem o direito de ter você mais do eu. Ninguém. Nem mesmo alguém que te trate melhor. Foda-se se isso for egoísmo. Eu sei quem é o melhor para você.
Eu reviro os olhos e desvio o olhar, sem ter a capacidade física e mental para continuar assistindo a sinceridade dos seus olhos. O preto está cada vez mais tomando conta do esverdeado, e isso é algo que eu não posso suportar. Qualquer coisa é melhor do que esse tom de seriedade. Volta a contar piada, por favor – eu quase imploro. Volta a tirar com a nossa cara. Mas não fica aí dizendo a verdade.
Você sabe como a verdade sempre nos destruiu.
- E quem seria o melhor para mim, Henrique?
- Aquele que te ama mais.
- Ou seja, o…
- Eu, Ana. Eu.
O silêncio toma conta do cômodo enquanto eu assimilo o que você acaba de dizer. Ou melhor, não assimilo nada. Apenas deixo que as palavras fluam em volta de mim, como uma música maravilhosa que jamais terá fim. Aprecio o sabor, o cheiro e o toque que elas têm. Mas já posso sentir o vidro se quebrar a cortar minha pele, porque nada vindo de você é totalmente real. Sempre há uma parte escondida por trás de tudo isso.
- Achei que você tivesse dito que o amar enfraquecesse as pessoas.
A risadinha triste preenche meus ouvidos, mas não é capaz de aniquilar o significado das palavras anteriores. “Eu”.
- E enfraquece. Mas, sinceramente… Olhe para mim. Existe alguma maneira de estar mais fraco do que eu já estou? Se houver, pode me falar.
Eu olhei para você e, pela primeira vez nesse tempo todo, reparei nas bolsas embaixo dos olhos. Nas mãos tremendo mais que o normal. Senti a sua pele fria contra a minha, seu olhar cansado sobre o meu. Um reflexo perfeito de como eu me sentia há tanto tempo, e havia aprendido a neutralizar com maquiagem. Mas os olhos nunca negam, você mesmo me disse. Os olhos sempre dizem a verdade. E os meus diziam que, ainda assim, você era a pessoa mais linda do mundo.
A melhor coisa do mundo, repeti para mim mesma com um aperto no coração.
- Ana…
Eu voltei para a realidade.
- Que foi?
- Essa é a semana da maior lua cheia em anos.
Aparentemente, eu havia me esquecido da sua habilidade imensa de trocar de assunto instantaneamente.
- E o que isso tem a ver com nós dois?
- Nada. Eu só tenho o pressentimento que ela finalmente escolheu qual desejo realizar.
Meus olhos se abriram com espanto, imaginando que você fosse dizer qualquer coisa, menos isso. O sorriso voltou aos nossos lábios, e eu podia sentir isso também. Podia sentir a lua colocando toda a sua magia sobre nós, como se não fossemos dois errantes. Eu quis gritar com a minha própria burrice, mas… Não parecia tão errado assim. Dentro de mim, lá no fundo… Pareceu até mesmo certo. E eu teria dito isso. O pior de tudo é que eu teria.
Se não fosse por uma maldita voz vinda da sala ter interrompido tudo.
- Anna? Sou eu, o Bernardo. Você deveria deixar a porta trancada, sabia? Daqui a pouco algo perigoso pode entrar.
Obviamente, ele estava enganado.
O perigo maior já estava aqui dentro. De casa. De mim.
Henrique.
Eu olho para frente, e vejo você sussurrar devagar.
- A Tati estava errada. Ela não é a única.
Eu sei.
Ana F (salt-waterroom)

